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Conversando sobre surdez e línguas de sinais: para além dos estereótipos

Alissa Turcatti
Desenho de três mãos fazendo sinais da Libras

Quando falamos em surdez, é comum que muitas pessoas associem a palavra à imagem de um indivíduo mudo, usuário de alguma língua de sinais (no caso do Brasil, a Libras), e incapaz de comunicar-se sem o auxílio de uma intérprete. No entanto, o assunto é mais complexo do que parece a princípio, e reduzi-lo a um simples estereótipo contribui para que a diversidade existente dentro da surdez não seja conhecida por todos. Os surdos são tão diferentes entre si, que fica difícil construir um modelo englobando todas as características de quem se enquadra nessa condição.

Para que a surdez seja melhor compreendida, é importante conhecer algumas ideias incorretas, mas ainda muito comuns, sobre as principais questões relacionadas a ela.

Esclarecendo algumas ideias de senso comum

Um ponto muito importante a ser esclarecido diz respeito à terminologia empregada para nomear o indivíduo surdo. O termo “surdo-mudo”, ainda muito comum, não deve ser utilizado para referir-se à pessoa surda. Essa denominação antiga foi substituída pelo termo “surdo” quando constatou-se que a surdez não tem ligação com a mudez.

Outra ideia errônea, também bastante difundida, tem relação com as línguas de sinais. Muitas pessoas acreditam que elas são universais, quando na verdade existem inúmeras línguas de sinais pelo mundo. A Libras - Língua Brasileira de Sinais - reconhecida como língua natural e oficial da comunidade surda brasileira pela Lei nº 10.436, é apenas uma delas. A imagem abaixo mostra as diferenças na forma de representação dos números entre a Libras e a Língua de Sinais Americana (ASL).

Comparação evidenciando a diferença entre os sinais que representam números na Libras e na Língua de Sinais Americana (ASL). Uma das diferenças mais significativas é a existência de um sinal exclusivo para o número 10 na ASL, o que não ocorre na Libras, onde o 10 é representado realizando-se o sinal do 1 seguido do sinal correspondente ao 0.

Há tantas variações entre as línguas de sinais que alguns países, como é o caso do Brasil, chegam a possuir mais de uma, embora apenas a mais abrangente seja reconhecida como língua oficial. O Brasil possui, além da Libras, uma língua de sinais utilizada pelos índios da etnia Urubu-Kaapor, conhecida como “Língua de Sinais Kaapor Brasileira” (LSKP ou LSUK). Ela surgiu espontaneamente dentro da tribo, para que fosse possível a comunicação entre os membros ouvintes com os surdos, considerados muito representativos nessa etnia (há aproximadamente 1 surdo para cada 75 ouvintes).

Apesar da existência de um grande número de línguas de sinais, elas ainda são pouco conhecidas pela população em geral. No caso da Libras, muitos acreditam, por exemplo, que ela é uma gestualização da língua portuguesa, sem estrutura gramatical própria, e composta por um conjunto de sinais aleatórios com significados óbvios. Na verdade, são muitas as diferenças entre a Libras e a língua portuguesa; na Libras, por exemplo, não há marcações para os gêneros feminino e masculino. Portanto, uma frase sinalizada em Libras segue uma estrutura própria, que é diferente da adotada na língua portuguesa. Se, ao sinalizar, for empregada a estrutura gramatical da língua portuguesa, diz-se que a pessoa está utilizando Português Sinalizado.  

Já os sinais podem ser tanto icônicos, ou seja, possuem um significado condizente com o que parecem estar representando (“sinal óbvio”), quanto arbitrários, sem nenhuma ligação com as características visuais do que representam.

Ilustração de uma pessoa realizando o sinal correspondente à palavra

Exemplo de sinal icônico: mastigar. Retirado do “Dicionário enciclopédico ilustrado trilíngue da língua de sinais brasileira”


Ilustração de uma pessoa realizando o sinal correspondente à palavra

Exemplo de sinal arbitrário: sozinho. Retirado do “Dicionário enciclopédico ilustrado trilíngue da língua de sinais brasileira”

A ideia mais comum dentre todas relacionadas à surdez e línguas de sinais é a de que Libras é a língua dos surdos ou que todos os surdos se comunicam através de línguas de sinais. Esse pensamento pode ser tanto verdadeiro quanto falso, dependendo do “conceito” de pessoa surda adotado. Atualmente, existem duas perspectivas diferentes do que caracteriza uma pessoa como surda. A primeira delas é mais centrada no lado orgânico e clínico da surdez, e a segunda a coloca dentro de uma perspectiva social, ideológica, cultural e histórica. Assim, antes de tentarmos analisar o pensamento proposto, precisamos conhecer essas duas diferentes visões da surdez.

 
As diferentes perspectivas sobre a surdez

Em uma perspectiva clínica, a surdez é considerada como o grau mais profundo da deficiência auditiva, onde a pessoa apresenta total incapacidade ou muita dificuldade para ouvir. Nem todas as pessoas com deficiência auditiva são surdas; grande parte delas possui uma perda pequena de estímulos sonoros (grau leve da deficiência), ou consegue reduzir perdas significativas com o uso de aparelhos auditivos (graus moderado e severo da deficiência). O esquema abaixo, retirado do blog Deficiência Auditiva, ilustra de forma mais detalhada a classificação médica e as características de cada grau da deficiência auditiva.

Esquema indicando as características  de cada nível da deficiência auditiva. A perda leve acarreta em uma dificuldade de compreender a fala com clareza; a perda moderada acarreta em dificuldades com sons suaves e falas em qualquer ambiente com ruídos no fundo; a perda severa acarreta implica no uso obrigatório de aparelhos auditivos para que seja possível manter uma conversa; e na perda profunda apenas alguns  ou mesmo nenhum som é audível.

Fonte: Matéria “Saiba se você está ficando surdo”

Assim, de maneira mais simplificada, a surdez está relacionada unicamente com o grau de perda auditiva apresentado pela pessoa.

Além dessa perspectiva clínica há também outra, originária da comunidade surda brasileira, que enfatiza um modo diferente de vivenciar a surdez. A comunidade surda brasileira é composta não somente por surdos, mas também por familiares, amigos, intérpretes de Libras, entusiastas, e outras pessoas interessadas em conhecer ou participar dela. Nela, a surdez é entendida como uma forma de existir, e seus integrantes surdos não se consideram deficientes auditivos, já que a palavra “deficiente” remete a uma limitação, incapacidade, à falta de algo; e para eles, a sua condição de pessoa surda na sociedade é motivo de orgulho. O trecho a seguir, retirado do site Cultura Surda, retrata esse pensamento, diferenciando o surdo do deficiente auditivo no entendimento da comunidade surda:

“Surdo”, em distinção à “deficiente auditivo” (aquele que não reconhece as práticas culturais surdas e que, tampouco, expressa uma identidade Surda), é a palavra usada e preferida por muitos sujeitos Surdos e, ao contrário do que alguns acreditam, não soa depreciativa ou ofensiva.”

Fonte: Artigo “Deficiente auditivo, surdo, Surdo?”

A comunidade surda brasileira possui uma identidade, história, cultura e ideologia próprias, concentrando na Libras sua principal forma de expressão, que a torna única em relação à cultura ouvinte.

Nesse caso, a surdez não relaciona-se unicamente com a perda auditiva, mas sim com a maneira escolhida para vivenciá-la. A pessoa que não ouve e escolhe viver de acordo com a ideologia da comunidade surda, ou seja, se comunicando através da Libras e reconhecendo as práticas culturais e políticas adotadas dentro dela, é considerada surda. Quem não ouve, utiliza formas de comunicação diferentes da Libras, e não se identifica nem participa da comunidade surda, é considerado deficiente auditivo.

O surdo oralizado - aquele que se comunica oralmente, utilizando tecnologias como os implantes cocleares ou realizando leitura labial - não seria, portanto, um surdo, mas sim um deficiente auditivo que se identifica mais com a cultura ouvinte majoritária do que com a cultura e comunidade surda.

Conhecendo essas duas perspectivas sobre a surdez, já é possível analisar a colocação inicial, que estabelecia a Libras como língua de todos os surdos.

Se considerarmos a visão clínica, nem todos os surdos se comunicam através de línguas de sinais. Um indivíduo com surdez profunda pode se comunicar sem conhecer a Libras, utilizando tecnologias como os implantes cocleares ou realizando leitura labial, sendo chamado de surdo oralizado. Alguns surdos oralizados conhecem tanto o português quanto a Libras, e são considerados bilíngues.

A escritora do blog Crônicas da Surdez, Paula Pfeifer Moreira, apresenta sua visão sobre a surdez enquanto surda oralizada e usuária de implantes cocleares:

“Surdo que é surdo...não escuta, ou escuta mal. E se comunica como bem entender. [...] Eu não estou interessada em ideologias, mas sim em me comunicar. E o modo que escolhi para isso não é melhor ou pior do que o modo que um surdo sinalizado escolheu [...]. Existe diversidade dentro da surdez, existem surdos oralizados E sinalizados, existem aparelhos auditivos e implantes cocleares, existe a opção de ouvir!!”

Fonte: Matéria “Surdos oralizados: Nós existimos, muito prazer!!”

Entretanto, se considerarmos a visão aceita pela comunidade surda, o surdo oralizado não é considerado como surdo, mas sim como uma pessoa com deficiência auditiva. Então, de fato, todos os surdos utilizariam a Libras para se comunicar; e, ao pensarmos na “Libras como língua do surdo”, estamos indo ao encontro das ideias adotadas pelas pessoas que pertencem à comunidade surda no Brasil ou se relacionam com ela.

Portanto, ambos os pensamentos são possíveis, já que ainda há uma discussão em aberto sobre o assunto. Enquanto existirem maneiras distintas de entender a surdez, será preciso divulgá-las adequadamente para que todos possam conhecer “os dois lados da moeda”, e, com isso, adotar sua própria visão do assunto; sempre mantendo em mente que o respeito à diversidade é o melhor caminho para a inclusão.

Para conhecer mais sobre surdez e línguas de sinais, acesse:

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